
Luis da Câmara Cascudo, em seu livro "Cultura e Civilização" (Editora Itatiaia. 1983), escreveu:
(...)Todos os animais que o homem domesticou ou reduziu à sua serventia participam do seu complexo mágico. Têm lendas, mitos, estórias, etiologias, funções terapêuticas e simbólicas. Significam valores morais, vícios, representações específicas de virtudes e defeitos, passando, nas fábulas, a uma vida de exemplos e no folclore a um mundo de assombros, medos, superstições. Foram tocados pelo homem. Contaminaram-se pelas alegrias e pavores de sua inteligência. Partilham da vida humana em sua miraculosa normalidade.
O excelente "Fábulas Farsas", de Gil Veloso, passeia com maestria por todos esses meandros, sem a simples e clássica antropomorfização de Esopo e La Fontaine, mas com os atores-bichos nos papéis sempre ambíguos da geleia contemporânea, com o adicional de uma alta voltagem de ironia , em um texto ágil, condensado e com técnica apuradíssima. A profusão de trocadilhos e citações é hilária, mas sempre em justa medida. O surpreendente texto é da mesma genealogia de algumas sacadas de Lewis Carrol e do John Lennon de "A Spaniard in the Works", editado aqui no Brasil em tradução de Paulo Leminski com o título "Um Atrapalho no Trabalho" (Editora Brasiliense. 1980).
Acredito que o autor divertiu-se bastante com a escrita deste livro, que além do lúdico traz muito da condição humana e das mazelas do processo civilizatório.
Dois pequenos trechos do texto de Gil Veloso:
(...)Os tais bichinhos, os cupins, parece que são organizadíssimos. Na penumbra - não gostam de luz - trabalham empenhados em perscrutar o silêncio. Nem um ruído sequer e vão construindo o vazio, a inanidade do ambiente; é este o seu ofício. Dizem que há, entre eles, reis , rainhas e soldados. Por minha conta acrescento: políticos (cupins de oratória, degradam tudo), banqueiros, juízes, advogados, pastores, cardeias e colaterais, a cúria toda, todo o clero esclerosado e as gentes demais que formam o povo, cupins de auditório, o zé-povinho basicamente. Escravos certamente os há, aos montes; ditadores, generais obrigando a roer a dita dura. Enfim, uma sociedade com seus modelos a definhar.
Há uma espécime emergente, cupins que só dão no cume (perdoe-me o cacófato, é fato), são os ambiciosos cupíncaros. Mas o que dá mais que chuchu na cerca , ou acerca de, sãos os célebres cupins vips, concupiscentes, fazem tudo para aparecer. Esse bando abunda pelos camarotes. Basta ligar a TV, abrir revistas. Cupieguice tamanha. (...)
(...)No mais, tudo em pasto; posso até resmungar, resvalar, mas um sabugo qualquer não me fará tombar. Que vienga el toro, aceito o incognoscível, a Ele peço quando tropeço: o Senhor é meu pastor, nada me fará pastar.
Contudo não me iludo, cedo aprendi que o que assunto e repenso só serve pra uso próprio, tem pouco valor no mercado alheio.
A propósito, burrografia não pretendo redigir, só sei pensar soletrado, não sô letrado; espero que postumamente um abutre não a faça revirando-me a carcaça
(pelamordedura-de-deus, bastam-me escaravelhos).
Deixo, enfim, testemunho bravo brando, minha filosofia de estribeira, ata que não desata; meu zurro juramento: mandíbula , casco e crina, sou um burro 100%, vulgo jumento.
Fiel à obsessão melômana deste sítio e homenageando o soberbo ritmo e a deliciosa musicalidade do texto de Gil Veloso, deixo abaixo as canções de Jorge Mautner e Ataulfo Alves, que ilustram (aliás o livro é muito bem ilustrado pelo artista plástico Vanderlei Lopes) com mais propriedade algumas facetas de "Fábulas Farsas".
SAMBA DOS ANIMAIS (Jorge Mautner). LP Jorge Mautner. 1974.
Jorge Mautner (voz e bandolim elétrico), Nelson Jacobina (violão), Roberto Carvalho (piano), Rodolfo Grani (baixo), Tuti Moreno (bateria) e Chico Azevedo (percussão)
O HOMEM E O CÃO (Ataulfo Alves/Arthur Vargas Jr). CD "Ataulfo Alves por Itamar Assupção".1995. Banda Isca de Polícia. Itamar Assumpção (voz), Vange Milliet e Tata Fernandes (pastoras), Paulo Lepetit (baixo), Luis Waack (guitarra), Luiz Chagas (guitarra). Bocato (trmbone), Ricardo Cristaldi (teclado) e Gigante Brasil (bateria)





