domingo, 6 de dezembro de 2009

Fábulas Farsas - Gil Veloso


Editora Opera Prima. 2009.

Luis da Câmara Cascudo, em seu livro "Cultura e Civilização" (Editora Itatiaia. 1983), escreveu:

(...)Todos os animais que o homem domesticou ou reduziu à sua serventia participam do seu complexo mágico. Têm lendas, mitos, estórias, etiologias, funções terapêuticas e simbólicas. Significam valores morais, vícios, representações específicas de virtudes e defeitos, passando, nas fábulas, a uma vida de exemplos e no folclore a um mundo de assombros, medos, superstições. Foram tocados pelo homem. Contaminaram-se pelas alegrias e pavores de sua inteligência. Partilham da vida humana em sua miraculosa normalidade.

O excelente "Fábulas Farsas", de Gil Veloso, passeia com maestria por todos esses meandros, sem a simples e clássica antropomorfização de Esopo e La Fontaine, mas com os atores-bichos nos papéis sempre ambíguos da geleia contemporânea, com o adicional de uma alta voltagem de ironia , em um texto ágil, condensado e com técnica apuradíssima. A profusão de trocadilhos e citações é hilária, mas sempre em justa medida. O surpreendente texto é da mesma genealogia de algumas sacadas de Lewis Carrol e do John Lennon de "A Spaniard in the Works", editado aqui no Brasil em tradução de Paulo Leminski com o título "Um Atrapalho no Trabalho" (Editora Brasiliense. 1980).
Acredito que o autor divertiu-se bastante com a escrita deste livro, que além do lúdico traz muito da condição humana e das mazelas do processo civilizatório.
Dois pequenos trechos do texto de Gil Veloso:

(...)Os tais bichinhos, os cupins, parece que são organizadíssimos. Na penumbra - não gostam de luz - trabalham empenhados em perscrutar o silêncio. Nem um ruído sequer e vão construindo o vazio, a inanidade do ambiente; é este o seu ofício. Dizem que há, entre eles, reis , rainhas e soldados. Por minha conta acrescento: políticos (cupins de oratória, degradam tudo), banqueiros, juízes, advogados, pastores, cardeias e colaterais, a cúria toda, todo o clero esclerosado e as gentes demais que formam o povo, cupins de auditório, o zé-povinho basicamente. Escravos certamente os há, aos montes; ditadores, generais obrigando a roer a dita dura. Enfim, uma sociedade com seus modelos a definhar.
Há uma espécime emergente, cupins que só dão no cume (perdoe-me o cacófato, é fato), são os ambiciosos cupíncaros. Mas o que dá mais que chuchu na cerca , ou acerca de, sãos os célebres cupins vips, concupiscentes, fazem tudo para aparecer. Esse bando abunda pelos camarotes. Basta ligar a TV, abrir revistas. Cupieguice tamanha. (...)

(...)No mais, tudo em pasto; posso até resmungar, resvalar, mas um sabugo qualquer não me fará tombar. Que vienga el toro, aceito o incognoscível, a Ele peço quando tropeço: o Senhor é meu pastor, nada me fará pastar.
Contudo não me iludo, cedo aprendi que o que assunto e repenso só serve pra uso próprio, tem pouco valor no mercado alheio.
A propósito, burrografia não pretendo redigir, só sei pensar soletrado, não sô letrado; espero que postumamente um abutre não a faça revirando-me a carcaça
(pelamordedura-de-deus, bastam-me escaravelhos).
Deixo, enfim, testemunho bravo brando, minha filosofia de estribeira, ata que não desata; meu zurro juramento: mandíbula , casco e crina, sou um burro 100%, vulgo jumento.


Fiel à obsessão melômana deste sítio e homenageando o soberbo ritmo e a deliciosa musicalidade do texto de Gil Veloso, deixo abaixo as canções de Jorge Mautner e Ataulfo Alves, que ilustram (aliás o livro é muito bem ilustrado pelo artista plástico Vanderlei Lopes) com mais propriedade algumas facetas de "Fábulas Farsas".

SAMBA DOS ANIMAIS (Jorge Mautner). LP Jorge Mautner. 1974.
Jorge Mautner (voz e bandolim elétrico), Nelson Jacobina (violão), Roberto Carvalho (piano), Rodolfo Grani (baixo), Tuti Moreno (bateria) e Chico Azevedo (percussão)


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O HOMEM E O CÃO (Ataulfo Alves/Arthur Vargas Jr). CD "Ataulfo Alves por Itamar Assupção".1995. Banda Isca de Polícia. Itamar Assumpção (voz), Vange Milliet e Tata Fernandes (pastoras), Paulo Lepetit (baixo), Luis Waack (guitarra), Luiz Chagas (guitarra). Bocato (trmbone), Ricardo Cristaldi (teclado) e Gigante Brasil (bateria)



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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Cioran e suas companheiras Manon, Margot e Fru-Fru

O texto abaixo foi retirado do livro "Breviário de Decomposição - Cioran", editora Rocco. 1995. Tradução de José Thomaz Brum.

FILOSOFIA E PROSTITUIÇÃO

O filósofo, desiludido dos sistemas e das superstições, mas ainda perseverante nos caminhos do mundo, deveria imitar o pirronismo de trottoir que exibe a criatura menos dogmática: a prostituta. Desprendida de tudo e aberta a tudo; esposando o humor e as idéias do cliente; mudando de tom e de rosto em cada ocasião; disposta a ser triste ou alegre, permanecendo indiferente; prodigando os suspiros por interesse comercial; lançando sobre os esforços de seu vizinho sobreposto e sincero um olhar lúcido e falso, ela propõe ao espírito um modelo de comportamento que rivaliza com o dos sábios. Não ter convicções a respeito dos homens e de si mesmo: tal é o elevado ensinamento da prostituição, academia ambulante de lucidez, à margem da sociedade como a filosofia. "Tudo o que sei aprendi na escola das putas", deveria exclamar o pensador que aceita tudo e recusa tudo, quando, a exemplo delas, especializou-se no sorriso cansado, quando os homens são, para ele, apenas clientes, e as calçadas do mundo o mercado onde vende sua amargura, como suas companheiras seu corpo.


O samba abaixo ("Seu Libório" , composto em 1936 por João de Barro e Alberto Ribeiro), foi extraído do LP de 10 polegadas "Museu de Cera", lançado em meados da década de 50 pela gravadora Continental. A gravação do menino prodígio Vassourinha (Mário Ramos de Oliveira), falecido aos 19 anos de idade, é de 1941.

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Seu Libório tem três vizinhas /Manon, Margot e Fru-fru/Saem todas as tardinhas/Carregando o seu Lulu/inguém sabe o que elas fazem/Porém todo mundo diz/Que Seu Líbório é quem manda/Ah!,Como o Libório é feliz. A Manon é mais lourinha/Que boneca de Paris/A Margot é queimadinha/Pelo sol do meu país/A Fru-fru tem um sinalzinho/Na pontinha do nariz/O Seu Libório é quem manda/Ai, Como o Libório é feliz. Seu Libório tem três vizinhas/Manon, Margot e Fru-fru/Saem todas as tardinhas/Carregando o seu Lulu/Ninguém sabe o que elas fazem/Porém todo mundo diz/Que Seu Líbório é quem manda/Ai, Como o Libório é feliz. Usam todas um V-8/Que lhes deu um coronel/Têm vestidos de altos preços/E perfumes a granel/Vivem assim felizes ,contentes/Com o que o destino lhes deu/ O Seu Libório é quem manda/Ai, o Seu Libório sou eu.

sábado, 7 de novembro de 2009

O Hierofante

Música de João Ricardo sobre poema de Oswald de Andrade, gravado no LP Secos & Molhados, 1974, gravadora Continental.

Vocais: João Ricardo, Ney Matogrosso e Gerson Conrad; Guitarra: John; Baixo:Willie; Piano: Emílio; Bateria: Norival
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O "hierofante" está inserido no poema " O Escaravelho de Ouro", publicado na Revista Acadêmica n.67, de novembro de 1946. É um texto peculiar de Oswald de Andrade que o aproxima do surrealismo dos poetas da geração de trinta, com características de hermetismo.



Transcrevo abaixo trechos do ensaio (publicado no livro "O Santeiro do Mangue e Outros Poemas"- Obras completas de Oswald de Andrade, editora Globo,1991) de Vera Maria Chalmers sobre o poema:



(...) O poema "O hierofante" exprime a recuperação e a posse do objeto onírico, o escarabeu com cabeça de carneiro, o amuleto egípcio que tem o criptograma inscrito no ventre: "Não há possibilidade de viver/Com essa gente/Nem com nenhuma gente/A desconfiança te cercará como um escudo/Pinta o escaravelho/De vermelho/E tinge os rumos da madrugada/Virão de longe as multidões suspirosas/Escutar o bezerro plangente". A metáfora escatológica do escaravelho simboliza os desejos da metafísica antropofágica em gestação. (...)



(...)O legado do poema "O Escaravelho de Ouro" é a criação mitopoética, fruto da ansiedade ancestral, resultado de um rompimento ambíguo com o sobrenatural. Mas que implica, de acordo com Benedito Nunes, na idéia do "reconhecimento agônico ou agonal de Deus, o elemento teológico irredutível da concepção oswaldiana, elaborada na fase de maior e de quase exclusivo interesse do poeta pela filosofia". O poema "O Escaravelho de Ouro"´é um amuleto fúnebre, um objeto "surrealista", premonitório de acontecimentos futuros, como o "Enigma de um Dia" de Chirico, uma obra a negro, destinada a dar à luz uma obra nova, como na pintura metafísica de Chirico, ou a transformar a personalidade literária do poeta Oswald de Andrade no filósofo de "A crise da filosofia messiânica".


(O Enigma de um Dia - Giorgio De Chirico. 1914)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Três da Madrugada

A Canção de Torquato Neto e Carlos Pinto: fac-símile da letra retirado do livro "Os Últimos Dias de Paupéria -Torquato Neto", segunda edição revista e ampliada, editora Max Limonad. 1982.
Abaixo o áudio da canção (voz: Gal Costa; violão: Gilberto Gil), lançada no disco compacto da Polygram(1973) que acompanhava a primeira edição de "Os Últimos Dias de Paupéria".
A canção foi relançada no cd songbook "Torquato Neto-Todo Dia é Dia D". Dubas Música. 2002

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O Poema de Adriano Nunes, publicado no blog "Quefaçocomoquenãofaço":

Três da Madrugada

Três da madrugada./Tudo é quase nada./Que dor não me guarda?/Que amor quer que eu arda?

Três da madrugada./Tudo é mesmo nada./(Minh'alma, mansarda!)/Que verso me aguarda?

Três da madrugada./Tudo é tudo ou nada./(Tiro de espingarda!)/A vida até tarda.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Os Labirintos

A Canção (extraída do ótimo cd "Quanta" do Gilberto Gil, 1997, wea)



Labirinto (Gilberto Gil /Jorge Mautner):

Contrabandearei tudo o que penso e que sinto

Pelo imenso labirinto

Contrabandearei tudo o que penso e que sinto

Pelo imenso labirinto
.


Sem fim maior

Que o labirinto

Do Minotauro em Creta

A lei do Amor me arrasta

Essa lei me basta

Essa lei ninguém decreta
.


Será que o profeta

Sempre prega no deserto

Eis por que talvez você

Nunca esteja aqui por perto
.


Mas estas coisas assim

Nós nunca jamais

Vamos saber ao certo
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O Poema de Adriano Nunes (publicado no blog "quefaçocomoquenãofaço")

Soneto do Ser

Eu sou quem me sinto,

Nunca quem me penso.

(Vivo sempre tenso

Em meu labirinto).

.

Às vezes, encontro-me

Só, perdido em mim.

Noutras, meu ser some

Num sonho sem fim.

.

Toda madrugada,

Vinga-se, essa vida,

De si, faz-se nada,

.

Finda. Que ferida

Em mim fica! Nada,

Enfim, tem medida.





segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A Alma do Subúrbio Carioca

Marcello Quintanilha, nascido em Niterói em 1971, iniciou sua carreira de quadrinista em 1988, sob o pseudônimo de Marcello Gaú. Em 1999, a editora Conrad publicou seu primeiro livro, "Fealdade de Fabiano Gorila", de onde extraí as duas ilustrações abaixo. Atualmente o autor mora em Barcelona, onde trabalha na série de quadrinhos "Sept Balles Pour Oxford". Novamente pela Conrad, ele publicou, este ano, um outro lindo livro, "sábado dos meus amores".

Madureira, subúrbio da Estrada de Ferro Central do Brasil

Transcrevo trechos do iluminado prefácio que Aldir Blanc escreveu para o primeiro livro de Marcello Quintanilha:
(...)Marcello Gaú, o Rosselini tupiniquim, com seu estilo realista, seus temas brasileiríssimos, quadrinhos pra voz de Ademilde Fonseca, o futebol de tantos sonhos destruídos, o Brasil desprezado, o Brasil dos subúrbios, dos clóvis nas linhas do trem, do buteco e da tendinha, das antenas parabólicas em barracos mal-ajambrados, dos gatos nos postes, dos farrapos humanos, sem misericórdia para os seus pares, seus párias, seus partos, suas paredes cheias de ouvidos, os bêbados de cair (...)
(...)Aqui estão a falta de luz e o candeeiro, a falta d'água e a lata, a falta de decoro das elites e os corruptos, o lotação, a porrada comendo solta, as vinte no canto da boca, brilhantina glostora, gravata sebosa em colarinho puído, rádio fanhoso, colchão sem lençol, os Cantos do Rio, máquina de costura, enchente, violão e flauta de seresta, desgraça, desastre, Pixinguinha, Radamés, conhaque pedreira, traçado, camelô, o corpo estendido no chão virando estética européia: de frente pro crime - e o medo do goleiro na hora do pênalti, espelho oxidado, carroça de angu do Gomes, quadro de Preto Velho com guia pendurada na ponta, "a lua furando nosso zinco", e a desolação, a desolação, a desolação - que se estende de Madureira, subúrbio da Estrada de Ferro Central do Brasil, às praias do feudo a leste de Marajó.
Pária, tipo Madame Satã, em buteco de subúrbio


O choro, como o samba, alegre e triste, é a trilha sonora destas crônicas em quadrinhos. Extraí do LP "Ademilde Fonseca" (Top Tape - 1975), uma obra de referência para o choro cantado, a primeira faixa do lado B: "Títulos de Nobreza (Ademilde no Choro)", de João Bosco e Aldir Blanc.
voz: Ademilde Fonseca; bandolim: Menezes; clarinete: Abel Ferreira; sax-soprano: Netinho; flautas: Copinha, Geraldo, Altamiro Carrilho, Jorginho; violão de 7 cordas: Dino; violões de 6 cordas: Neco, Jorge Menezes e Meira; cavaquinho: Canhoto; baixos: Gabriel e Sérgio Barroso; bateria: Wilson das Neves; ritmistas: Jorge Silva, Risadinha, Cabelinho, Gílson, Jorge Garcia, Luna, Eliseu e Marçal; coro: Grupo Nosso Samba e As Gatas.

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sábado, 10 de outubro de 2009

Áurea Martins e Paulo Mendes Campos



Raríssimo Lp (RCA-CAMDEN-107.0129) "O Amor em Paz" de Áurea Martins, gravado em 1972, com a coordenação artística de Rildo Hora, arranjos de Luiz Eça, acompanhamento do Tamba Trio e participação especial e inusitada do escritor Paulo Mendes Campos.



Áurea Martins é uma grande cantora brasileira , que ao longo dos anos, longe dos circuitos comerciais, oferece sua voz abençoada em casas noturnas do Rio de Janeiro, especialmente na Lapa. Recentemente assisti a uma apresentação sua no bistrô da loja Modern Sound em Copacabana.



Gravou poucos discos (apenas três em 69 anos de vida). O mais recente foi o cd "Até Sangrar", pelo selo Biscoito Fino, ano passado, com produção de Hermínio Bello de Carvalho.



Áurea nasceu em Campo Grande, zona oeste do Rio, em uma família repleta de músicos amadores (a mãe, por exemplo, era cantora de igreja). Tornou-se "crooner' muito cedo e guarda o ressentimento de nunca ter sido valorizada à altura de seu talento.



Extraí do seu primeiro LP a bela canção "O que tinha de ser" (Tom Jobim-Vinícius de Moraes), com a intervenção poética de Paulo Mendes Campos, recitando um trecho do poema "No princípio do amor". Ouça abaixo, é tudo divino e maravilhoso.




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Transcrevo em seguida o poema integral de Paulo Mendes Campos, publicado originalmente no livro "Testamento do Brasil", em 1956, e posteriormente em "Os Melhores Poemas" (Global Editora-1990)



No Princípio do Amor



No princípio do amor, outro amor que nos precede

adivinha no espaço o nosso gesto.

No princípio do amor, o fim do amor.

Folhagens irisadas pela chuva,

varandas traspassadas de luz, poentes de ametista,

palmeiras estruturadas para um tempo além de nosso tempo,

pássaros

fatídicos na tarde assassinada, ofuscação deliciosa

no lago - no princípio do amor

já é amor. E pode ser setembro

com o sol estampado na bruma fulva. Monótona

é a praça com o clarim sanguíneo do meio-dia.

No princípio do amor, o humano se esconde,

bloqueado na terra das canções, astro acuado

em galáxias que se destroçam. E tudo

é nada: nasce a flor e morre o medo

que mascara a nossa face. Navios

pegam fogo defronte da cidade obtusa,

precedida de um tempo que não é o nosso tempo.

No princípio do amor, sem nome ainda, o amor

busca o lábio das magnólias, o coração violáceo

da hortência, a virgindade da relva.

É, foi, será o princípio de amor. A mulher

abre a janela do parque enevoado, globos irreais,

umidade, doçura,

enquanto o homem - criatura ossuda, estranha -

ri no fundo de torrentes profundas

e deixa de ir subitamente, fitando nada.

Isto se passa em salas nuas,

em submersas paisagens viúvas, argélias

tórridas, fiords friíssimos, desfiladeiros

escalvados, parapeitos de promontórios

suicidas, vilarejos corroídos de ferrugem,

cidades laminadas, trens subterrâneos,

apartamentos de veludo e marfim, províncias

procuradas pela peste, cordilheiras tempestuosas,

planícies mordidas pela monotonia do chumbo, babilônias

em pó, brasílias

de vidro, aviões infelizes em um céu

de rosas arrancadas, submarinos ressentidos

em sua desolação redundante, nas altas torres

do mundo isto se passa; e isto existe

dentro de criaturas inermes, anestesiadas

em anfiteatros cirúrgicos, ancoradas em angras

dementes, pulsando através de alvéolos artificiais,

criaturas agonizando em neblina parda,

parindo amor, morte, amor.

E isto se passa como um cavalo em pânico.

E isto se passa até no coração opulento

de mulheres gordas,

de criaturas meio comidas pelo saibro,

no coração de criaturas confrangidas entre o rochedo

e o musgo, no coração de

Heloísa, Diana, Maria,

Pedra, mulher de Pedro,

Consuelo, Marlene, Beatriz.

Olhar - anel primeiro do planeta Saturno

Olhar, aprender, desviver.

Além da janela só é visível a escuridão.

Olhar - galgo prematuro da alvorada.

No princípio do amor, olhar

a escuridão; depois, os galgos prematuros da alvorada.

No princípio do amor, morte de amor antes da morte.

Amor. A morte. Amar-te a morte.

Sexos que se contemplam perturbados. No princípio do amor

o infinito se encontra.

No princípio do amor a criatura se veste

de cores mais vivas, blusas

preciosas, íntimas peças escarlates,

linhos sutis, sedas nupciais, transparências plásticas,

véus do azul deserto, pistilos da opalina,

corolas de nylon, gineceus rendados,

estames de prata, pecíolos de ouro, flor,

é flor,

é flor que se contempla contemplada.

Isto se passa de janeiro a dezembro

como os navios iluminados.

No princípio do amor

o corpo da mulher é fruto sumarento,

como a polpa do figo, fruto,

fruto em sua nudez sumarenta, essencial, pois

tudo no mundo é uma nudez expectante

como o corpo da mulher no princípio do amor.

Fruto na sombra: mas é noite.

Noite por dentro e por fora do fruto.

Nas laranjas de ouro.

Nos seios crespos de Eliana

Nas vinhas que se embriagam de esperar.

Ramagens despenteadas, recôncavos expectantes,

cinzeladas umbelas, estigmas altivos,

é noite,

é flor, é fruto.

Mas nos seios dourados de Eliana

amanheceu.









quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Quarteto Excelsior

LP de Dez polegadas (CLP-3012) editado pela Copacabana em 1955 com o entrosadíssimo quarteto do Maestro Zaccarias, confirmando a grande tradição brasileira de música instrumental.
O quarteto era formado por Zaccarias (voz e clarinete), Fats Elpídio (piano), Bill (baixo) e Romeu (bateria).
Além da excelência instrumental, uma outra marca registrada desta gravação é o modo de cantar do maestro, prenunciando o estilo "bossa nova" estabelecido alguns anos depois. Fafá Lemos do Trio Surdina também foi um dos precursores deste jeito "cool' de cantar.
Os seguintes temas foram gravados no lado A do LP: Aproveita a Maré (Walfrido Silva-Humberto de Carvalho), O Orvalho Vem Caindo (Noel Rosa-Kid Pepe), Baião Gracioso (Zaccarias), Implorar (Germano Augusto-Kid Pepe-Gaspar). O lado B foi contemplado com alguns "standards" e outros temas estrangeiros.
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Extraí abaixo o áudio do samba clássico de Kid Pepe "Implorar"

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sábado, 3 de outubro de 2009

Os Óculos Escuros

(...) 4. Imaginemos que eu tenha chorado, por causa de algum incidente do qual o outro nem mesmo se deu conta (chorar faz parte da atividade normal do corpo apaixonado), e que, para que não se veja, ponho óculos escuros nos meus olhos embaçados (belo exemplo de denegação: escurecer a vista para não ser visto). A intenção do gesto é calculada: quero guardar o benefício moral do estoicismo, da "dignidade" (me tomo por Clotilde de Vaux), e ao mesmo tempo, contraditoriamente provocar a doce pergunta ("Mas o que é que você tem?"); quero ser ao mesmo tempo lamentável e admirável, quero ser ao mesmo instante criança e adulto. Agindo desse modo, jogo, arrisco: pois é sempre possível que o outro não pergunte nada sobre esses óculos inusitados, e que, na verdade, não veja neles nenhum signo. (...)
(texto extraído do livro "Fragmentos de um Discurso Amoroso. Roland Barthes. Sétima edição. Ed. Francisco Alves. Tradução de Hortência dos Santos.1977)
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O Vampiro (Jorge Mautner)

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extraído do LP "Árvore da Vida". 1988. Jorge Mautner (voz e violino), Nelson Jacobina (violão).

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Soluços (jards Macalé/Duda Machado)

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extraído do compacto duplo "só morto"-burning night. 1970. Jards Macalé (voz, violão, arranjos), Zé Rodrix (piano e órgão), Ricardo e Jaime (guitarras), Bruce (baixo), Alírio (bateria), Naná Vasconcelos (ritmo)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Bach por E. M. Cioran

SECULARIZAÇÃO DAS LÁGRIMAS

Só a partir de Beethoven a música se dirige aos homens: antes, só conversava com Deus. Bach e os grandes italianos não conheceram esse deslize para o humano, esse falso titanismo que altera, desde o Surdo, a arte mais pura. A torção do querer substituiu as suavidades; a contradição dos sentimentos, o ímpeto ingênuo; o frenesi, o suspiro disciplinado. O pecado fluía antes em doces prantos; veio o momento em que transbordou: a declamação venceu a oração, o romantismo da Queda triunfou sobre o sonho harmonioso da decadência...
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Bach: languidez de cosmogonia; escada de lágrimas por onde sobem nossos desejos de Deus; arquitetura das nossas fragilidades, dissolução positiva - e a mais alta - de nossa vontade; ruína celeste da Esperança; único modo de perder-nos sem desmoronar e de desaparecer sem morrer...
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É tarde demais para reaprender esses desvanecimentos? Precisamos continuar desfalecendo fora dos acordes do órgão?
(texto extraído do livro "Breviário de Decomposição"-Cioran. Ed. Rocco.Tradução: José Thomaz Brum. 1995.)
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Bach, Christ lag in Todesbaden Kantate
zum 1. Ostertag BWV 4.
Versus VI:"So feiern wir das hohe Fest
Münchene Bach-Orch./Karl Richter
Dietrich Fischer-Dieskau
1969
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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Colapso II - Cecile Petrovisk

Leia aqui
http://poesianomade.blogspot.com/2009/09/cecile-petrovisk-colapso-ii-para-neuma.html

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O Amor - Cida Moreyra

Canção de Ney Santos e Caetano Veloso, com letra adaptada de poema de Vladímir Maiakóvski.
Áudio extraído do LP Abolerado Blues-Cida Moreyra, 1983. Lira Paulistana Gravadora e Editora.

Voz: Cida Moreyra; piano e teclados: Luís Lopes

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Talvez quem sabe um dia/Por uma alameda do zoológico/ Ela também chegará/Ela que também amava os animais/Entrará sorridente assim como está /Na foto sobre a mesa/Ela é tão bonita/Ela é tão bonita que na certa/Eles a ressuscitarão/O Século Trinta vencerá/O coração destroçado já/Pelas mesquinharias/Agora vamos alcançar/Tudo o que não podemos amar na vida/Com o estelar das noites inumeráveis/Ressuscita-me/Ainda que mais não seja/Por que sou poeta /E ansiava o futuro/Ressuscita-me/Lutando contra as misérias/Do cotidiano/Ressuscita-me por isso/Ressuscita-me/Quero acabar de viver o que me cabe/Minha vida/Para que não mais existam/Amores servis/Ressuscita-me/Para que ninguém mais tenha/De sacrificar-se/Por uma casa, um buraco/Ressuscita-me/Para que a partir de hoje/A partir de hoje /A família se transforme/E o pai seja pelo menos o universo/E a mãe seja no mínimo a Terra.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Vera Lynn

A cantora inglesa Vera Lynn, 92 anos de idade, é a pessoa mais velha, viva, a alcançar o topo da parada musical britânica. Façanha alcançada com seu álbum-coletânea "We'll Meet Again - The best of Vera Lynn", esta semana.

Vera Lynn ficou conhecida como "a queridinha dos soldados", por ter cantado para as tropas britânicas, durante a Segunda Guerra Mundial.

Encontrei este vídeo de uma das suas apresentações em 1942, cantando seu "hit" We'll Meet Again, onde derrama palavras de otimismo e esperança para a plateia de militares.

We'll Meet Again (Ross Parker/Hughie Charles)
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We'll meet again, don't know where, don't know when/But I'm know we'll meet again some sunny day/Keep smiling through, just like you always do/Till the blue skies drives the dark clouds far away/And I'll say "Hello" to the folks that I know/Tell 'em it won't be long/They'd be happy to know that when I saw you go/You are singing this song/We'll meet again, don't know where, don't know when/But I'm know we'll meet again some sunny day


Roger Waters (vocalista, baixista e compositor) do Pink Floyd, que perdeu seu pai no front da Segunda Guerra Mundial, destilou toda sua amargura na canção "Vera", em que cita literalmente
a música We'll Meet Again, cantada por Vera Lynn. Extraí o áudio, abaixo, do LP The Wall, 1979

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Does anybody here remember Vera Lynn?/Remember how she said/That we would meet again/Some sunny day/Vera!Vera!/What has become of you?/Does anybody else in here feel the way I do?


A cena final do indispensável filme de Stanley Kubrick Glória Feita de Sangue (Paths of Glory-1957), uma das mais líricas do cinema, mostra um grupo de soldados franceses, durante a Primeira Guerra Mundial, debochando de uma garota alemã capturada (interpretação da atriz Susanne Chistian, posteriormente Christiane Kubrick, companheira do cineasta até o final de sua vida), que após o escárnio inicial passa imediatamente para um estado de pura emoção quando a moça interpreta a canção Der Treue Huser (The Faithfull Hussar), título também de um filme alemão que inspirou algumas gravações de Vera Lynn.

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domingo, 13 de setembro de 2009

O Tango, por Borges e José Lino Grünewald

Trecho do livro "Carlos Gardel, Lunfardo e Tango -segunda edição-Nova Fronteira.1994", do grande intelectual e audiófilo brasileiro José Lino Grünewald:

(...)Mas, como observa Pompeyo Camps, em "Tango y ragtime" (apud Primer diccionario gardeliano, p.220), " a ingerência do negro no nascimento do tango é mais do que evidente(...)A música do ragtime é invariavelmente alegre. (...) O mesmo acontece com os primeiros tangos de autor anônimo (...) Enquanto o tango foi 'coisa de negros', não perdeu a alegria, nem a picardia(...) Quando foi adotado pelo branco, o nativo e o filho do emigrante, que viu frustradas suas ilusões de "fazer a América", o tango... começou a submergir em letras que falam de decepções, traições, ultrajes, misérias, álcool, cárcere, solidão e angústia existencial da cidade".
A partir daí foi que Jorge Luís Borges, em "Evaristo Carriego", disse que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Julio Mafud, em sua "Sociología del tango", desenvolve a seguinte concepção: "O tango não pode ser cantado em coro. Nem pode ser dançado em 'roda', coletivamente. O convívio tanguístico, mais do que o convívio de mundos, é ruminação interior de cada um em seu mundo particular. Daí, suas inovações fundamentais foram trazidas por homens, isoladamente. Nem sequer existiu, em sua criação, a influência decisiva de alguma mulher. Gardel criou as formas cantáveis do tango, como disse Horacio A. Ferrer. Pascual Contursi inventou o tango com letra. Vicente Grego e Juan Miglio 'Pacho' 'socializaram' o tango das orlas. Pedro Maffia desenvolveu o tango com o bandaneon. E Enrique Santos Discépolo antecipou o modus de sua filosofia. O tango, neste sentido, está longe do folclore. Nunca a sua origem é coletiva ou anônima, porém vivida e individual. A catarse é individual, nisso não há dúvidas."


Abaixo, a magnífica letra de Jorge Luís Borges "Alguien le dice al tango", musicada por Astor Piazzolla e cantada por Edmundo Rivero, extraída do LP "El Tango" (polydor-1977). Segue tradução de José Lino Grünewald

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Tango que he visto bailar/Contra un ocaso amarillo/Por quienes eran capaces/De otro baile, el del cuchillo./Tango de aquel Maldonado/Con menos agua que barro;/Tango silbado al pasar/Desde el pescante del carro.
Despreocupado y zafado,/Siempre mirabas de frente./Tango que fuiste la dicha/De ser hombre y ser valiente./Tango que fuiste feliz,/Como yo también lo he sido,/Según me cuenta el recuerdo;/El recuerdo fue el olvido.
Desde ese ayer, ¡cuántas cosas /los dos nos han pasado!/Las partidas y el pesar/De amar y no ser amado./Yo habré muerto y seguirás /Orillando nuestra vida./Buenos aires no te olvida,/Tango que fuiste y serás.



Alguém disse ao tango (tradução de José Lino Grünewald):

Tango que mirei bailar/Contra a tarde amarelada/Por aqueles que eram hábeis/Noutro baile, o da facada./Tango do tal Maldonado/Com menos água que barro;/Tango assobiado ao passar/Lá da boléia do carro.

Despreocupado e safado,/Sempre encaravas de frente,/Tango que foste o destino/De ser homem, ser valente./Tango que foste feliz/Como eu também tenho sido,/Tal me relata a lembrança,/Que é feita um pouco de olvido.

Desde esse ontem, quantas coisas/Por nós dois já têm passado;/As partidas e o pesar/De amar sem ser amado./Entrei morto e irás/Palmilhando nossa vida;/Buenos Aires não te olvida,/Tango que foste e serás.

Há uma grande tradição brasileira de execução e gravação de tangos, que se reporta a nomes como Anacleto de Medeiros, Catulo da Paixão Cearense, Mário Pinheiro, Joubert de Carvalho e outros. Além de versões dos temas portenhos, vários compositores brasileiros fizeram tangos originais, como foi o caso de Herivelto Martins e David Nasser.

Abaixo, da dupla acima citada, extraí o tango "Vermelho 27", do maravilhoso disco de 10 polegadas " O tango na voz de Nelson Gonçalves", gravado em 1956 pela RCA Victor (BPL-3018)

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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Fábulas Farsas- Gil Veloso