04/08/11

Alvarenga & Ranchinho

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Inacreditável valsa humorística, também definida na década de 1940, no selo do disco de lançamento, como "canção tétrica", onde os geniais Alvarenga e Ranchinho relatam, na maior pletora de proparoxítonas da música popular brasileira, a saga de uma iatrogenia anunciada.


Drama de Angélica
(Alvarenga)

Ouve meu cântico quase sem ritmo,
Que a voz de um tísico magro esquelético...
Poesia épica em forma esdrúxula,
Feita sem métrica com rima rápida...


Amei Angélica, mulher anêmica
De cores pálidas e gestos tímidos...
Era maligna e tinha ímpetos
De fazer cócegas no meu esôfago...


Em noite frígida fomos ao "Lírico",
Ouvir o músico, pianista célebre...
Soprava o zéfiro, ventinho úmido,
Então Angélica ficou asmática...


Fomos ao médico de muita clínica,
Com muita prática e preço módico...
Depois de inquérito descobre o clínico
Um mal atávico, mal sifilítico...


Mandou-me célere comprar noz vômica
E ácido cítrico para o seu fígado...
O farmacêutico, mocinho estúpido,
Errou na fórmula, fez despropósito...


Não tendo escrúpulo, deu-me, sem rótulo,
Ácido fênico e ácido prússico...
Corri mui lépido mais de um quilômetro
Num bonde elétrico de força múltipla...


O dia cálido deixou-me tépido,
Achei Angélica já toda trêmula...
A terapêutica, dose alopática,
Lhe dei em xícara de ferro ágate...


Tomou num fôlego, triste e bucólica,
Esta estrambólica droga fatídica...
Caiu no esôfago, deixou-a lívida,
Dando-lhe cólica e morte trágica...


O pai de Angélica, chefe do tráfego,
Homem carnívoro ficou perplexo...
Por ser estrábico usava óculos:
Um vidro côncavo e outro convexo...


Morreu Angélica de um modo lúgubre,
Moléstia crônica levou-a ao túmulo...

Foi feita a autópsia, todos os médicos
Foram unânimes no diagnóstico...


Fiz-lhe um sarcófago assaz artístico,
Todo de mármore, da cor do ébano...

E sobre o túmulo uma estatística,
Coisa metódica como "Os Lusíadas"...


E numa lápide, paralelepípedo,
Pus esse dístico terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica, moça hiperbólica
Beleza helênica, morreu de cólica!"


(gravação retirada do LP "SOM BRASIL 1981. Tapecar Gravações)


Segundo a "Enciclopédia da Música Popular Brasileira-erudita, folclórica, popular" , a dupla teve inúmeros problemas com a censura oficial na década de 30, por suas sátiras políticas, mas em 1939 a questão foi resolvida com o velho jeitinho brasileiro, quando Alzira Vargas, filha do presidente Vargas, convidou os cantores para se apresentarem no Palácio das Laranjeiras. Getúlio, depois de ouvir inclusive algumas músicas que se referiam a ele, deu ordens para que as composições da dupla fossem liberadas em todo território nacional.